O que é sororidade?
Sororidade é a prática de reconhecer outras mulheres como parceiras de caminhada, respeitando suas histórias, escolhas e desafios. A palavra deriva do latim soror, que significa “irmã”, e expressa uma ideia de irmandade, solidariedade e apoio mútuo.
Na prática, ser sororável não significa concordar com todas as atitudes de outra mulher, nem ignorar comportamentos prejudiciais. Significa evitar julgamentos precipitados, compreender os diferentes contextos de vida e agir com respeito, especialmente diante de situações de desigualdade ou violência.
Na minha reflexão no vídeo abaixo, dentro do canal Dicas da Nena no Youtube, eu destaco que cada mulher possui uma trajetória própria, ou seja, usar a própria história como medida para avaliar a vida de outra pessoa pode impedir que suas dificuldades sejam realmente compreendidas.
Uma mulher que cresceu em uma família acolhedora pode não perceber o medo de outra que viveu relações abusivas. Alguém que teve acesso a boas oportunidades profissionais talvez não compreenda imediatamente os obstáculos enfrentados por uma colega que precisou interromper os estudos para cuidar dos filhos. O exercício da sororidade começa quando reconhecemos essas diferenças.
Por que a sororidade é importante hoje?
A sociedade contemporânea ainda apresenta desigualdades significativas entre homens e mulheres. Elas aparecem na divisão do trabalho doméstico, na remuneração, na presença em cargos de liderança, no acesso à saúde e na exposição à violência.
O relatório The Gender Snapshot 2024, publicado pela ONU Mulheres e pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, reforça que o mundo continua distante de alcançar a igualdade de gênero nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O documento também evidencia que mulheres e meninas enfrentam obstáculos que se intensificam quando se combinam fatores como raça, idade, deficiência, pobreza, orientação sexual ou local de moradia.
Nesse cenário, a sororidade contribui para interromper ciclos de isolamento e silenciamento. Uma mulher que orienta uma colega, compartilha uma oportunidade ou oferece escuta qualificada pode ajudar a ampliar o acesso dela a recursos e possibilidades.
A atitude parece simples, mas seus efeitos podem ser profundos. Apoio emocional, informação e solidariedade prática são ferramentas importantes para fortalecer a autonomia feminina.
Sororidade não é competição entre mulheres
Durante muito tempo, mulheres foram incentivadas a competir pela aparência, pelo reconhecimento profissional, pela aprovação social e pela atenção masculina. Essa lógica pode gerar desconfiança, comparação constante e hostilidade entre elas.
A sororidade propõe uma mudança de perspectiva. Em vez de enxergar o sucesso de uma mulher como ameaça, é possível reconhecê-lo como uma conquista que pode abrir caminhos para outras.
Isso não significa eliminar conflitos ou fingir que todas as mulheres pensam da mesma maneira. Relações entre mulheres, como qualquer relação humana, podem envolver divergências, frustrações e limites. A diferença está na forma de lidar com essas situações.
Uma crítica sororável é feita com respeito e responsabilidade. Ela não expõe alguém ao ridículo, não utiliza informações pessoais para humilhar e não reforça preconceitos relacionados à idade, ao corpo, à maternidade, à sexualidade ou à condição financeira.
Como praticar a sororidade no cotidiano?
A sororidade precisa ultrapassar os discursos e aparecer em atitudes concretas. Algumas práticas podem fazer parte da rotina:
1. Escute antes de julgar
Quando uma mulher compartilha uma dificuldade, a primeira reação não precisa ser oferecer uma solução ou comparar sua experiência com a dela. Muitas vezes, ela precisa ser ouvida sem interrupções e sem frases que diminuam o que está sentindo.
Expressões como “isso não é tão grave” ou “eu passei por coisa pior” podem fechar o espaço de diálogo. Uma escuta atenta comunica que a experiência daquela pessoa merece ser levada a sério.
2. Respeite escolhas diferentes
Mulheres podem escolher caminhos distintos em relação à carreira, à maternidade, aos relacionamentos, à aparência, à religião e ao envelhecimento. Respeitar uma escolha não significa adotá-la para si.
Uma mulher que decidiu não ter filhos não é menos feminina. Uma mãe que priorizou a família não é menos ambiciosa. Uma profissional que deseja continuar trabalhando depois dos 60 anos não precisa justificar seu projeto de vida.
3. Combata comentários preconceituosos
Piadas e comentários sobre o corpo, a idade, o cabelo, a roupa ou a vida afetiva de outra mulher podem parecer inofensivos, mas reforçam padrões que atingem muitas pessoas.
Em uma conversa entre amigas, no ambiente de trabalho ou nas redes sociais, é possível interromper esse tipo de comportamento com firmeza e educação. Em vez de compartilhar uma crítica sobre a aparência de alguém, escolha não alimentar a conversa.
4. Compartilhe informação e oportunidades
Indicar um curso, uma vaga de emprego, uma profissional competente ou um serviço de apoio pode fazer diferença na vida de outra mulher.
No trabalho, a sororidade também aparece quando uma colega é incluída em reuniões, tem sua contribuição reconhecida ou recebe orientação para desenvolver novas habilidades. Dar crédito às ideias de uma mulher é uma forma objetiva de combater a invisibilidade profissional.
5. Apoie sem controlar
Ajudar não significa decidir pela outra pessoa. O apoio deve respeitar sua autonomia e suas escolhas.
Em situações de violência, por exemplo, é importante oferecer escuta, informações sobre serviços especializados e ajuda segura, sem pressionar a vítima a tomar decisões imediatas. O Ministério das Mulheres mantém o Ligue 180, canal oficial de orientação e denúncia relacionado à violência contra a mulher no Brasil.
Sororidade em ação: redes que protegem e transformam
As redes de apoio entre mulheres podem surgir em diferentes espaços. Vizinhas que organizam um sistema de cuidado para crianças, colegas que se revezam para acompanhar uma amiga doente e grupos comunitários que arrecadam recursos para uma mulher em situação de vulnerabilidade são exemplos de solidariedade cotidiana.
No ambiente acadêmico, grupos de mentoria ajudam estudantes a permanecerem em cursos nos quais ainda são minoria. No mercado de trabalho, redes profissionais ampliam o acesso a contatos, conhecimento e oportunidades.
Também existem mobilizações coletivas contra o assédio e a violência. O movimento #MeToo, que ganhou projeção internacional a partir de 2017, mostrou como relatos individuais poderiam revelar padrões de abuso e estimular mudanças institucionais. Embora movimentos dessa natureza enfrentem desafios e não substituam políticas públicas, eles evidenciam a força da união e da denúncia coletiva.
Outro exemplo está nas organizações de mulheres que oferecem acolhimento, orientação jurídica, atendimento psicológico e encaminhamento para serviços públicos. Essas iniciativas demonstram que sororidade não é apenas uma atitude individual: também pode se transformar em ação social organizada.
Quais são os limites da sororidade?
A sororidade não deve ser confundida com defesa automática de qualquer comportamento praticado por uma mulher. Apoiar mulheres também significa reconhecer responsabilidades, respeitar limites e não encobrir atitudes que causem danos.
Além disso, é importante praticar uma sororidade inclusiva. Mulheres não vivem as mesmas experiências. Uma mulher negra, indígena, com deficiência, lésbica, trans, imigrante ou em situação de pobreza pode enfrentar barreiras específicas que não são percebidas por mulheres socialmente privilegiadas.
Por isso, a sororidade precisa estar associada à escuta, à justiça e à disposição para rever preconceitos. Não basta dizer que todas as mulheres devem ser apoiadas; é necessário observar quem continua sendo deixada de fora.
Como levar esse princípio para a vida?
O primeiro passo é observar a própria linguagem e as próprias reações. Antes de criticar outra mulher, vale considerar se o julgamento está baseado em fatos ou em expectativas sociais.
Também é importante perguntar a si mesma se a crítica seria feita da mesma forma caso a pessoa fosse um homem. Esse exercício ajuda a identificar padrões duplos relacionados à aparência, à autoridade, à idade e ao comportamento.
Na família, na escola, no trabalho e nas redes sociais, atitudes consistentes podem fortalecer relações mais respeitosas:
• reconhecer o esforço de outras mulheres;
• ouvir sem transformar a conversa em competição;
• indicar oportunidades;
• defender uma colega diante de uma injustiça;
• respeitar limites e confidências;
• denunciar situações de violência pelos canais adequados;
• valorizar mulheres de diferentes origens, idades e trajetórias.
Sororidade começa com empatia, mas não termina nela. Ela se concretiza quando a compreensão se transforma em presença, responsabilidade e apoio. Ao substituir o julgamento automático por um segundo olhar, cada mulher contribui para construir relações mais humanas, seguras e solidárias.





